segunda-feira, 5 de novembro de 2012

“Para trabalhar com Antonia Lúcia tem que virar bandido”


Funcionário da Secretaria de Segurança Pública do Acre, José Sales de Araújo Neto, 40, trabalhou durante três anos e meio como motorista da deputada federal Antonia Lúcia (PSC-AC) e denuncia que, no decorrer da “relação de trabalho”, abriu duas contas correntes, sendo uma no Banco do Brasil e outra no Banco Real.
Aproximadamente 60 folhas dos talionários de cheques retirados nos dois bancos foram assinados e entregues à deputada Antonia Lúcia, que utilizou as contas de titularidade do ex-motorista para diversas transações comerciais em seu benefício e em benefício da Rádio e Televisão Boas Novas.
Neto nunca recebeu proventos ou salários que superassem R$ 1 mil por mês, sendo incompatível mais de R$ 200 mil da movimentação financeira constatada por 28 cheques que resgatou e estão em suas mãos.
Os cheques foram emitidos pela deputada Antonia Lúcia para diversas finalidades, como compras de roupas em loja de Brasília e de bens imóveis nas cidades de Senador Guiomard e Rio Branco, ambas no Acre.
Alguns do cheques foram utilizados no pagamento de um veículo adquirido em Brasília pela deputada, em nome do ex-motorista, na concessionária Ford Dakar, mas devolvidos por insuficiência de fundos.
O veículo adquirido junto a Dakar servia ao marido de Antonia Lúcia, o deputado Silas Câmara (PSC-AM), conforme se comprova pelas notas fiscais. O casal de evangélicos, líderes da Assembléia de Deus, respondem a vários processos.
Em setembro, por exemplo, Heber e Milena Câmara, filhos do casal, foram presos no Acre pela Polícia Federal com R$ 475 mil sem origem declarada, dentro de uma caixa de papelão. Segundo o Ministério Público Federal, o dinheiro foi enviado por Silas Câmara, do Amazonas, para a campanha da mulher dele, no Acre, para a compra de votos e despesas de caixa dois.
Neto trabalhou na campanha de Antonia Lúcia e do deputado estadual Walter Prado, em 2006, e participou da listagem de eleitores para a compra de votos.
- Para trabalhar com Antonia Lúcia tem que virar bandido – afirma.
Consultada pela reportagem, a deputada Antonia Lúcia nega as acusações.
- Ele é mentiroso e o meu advogado vai esclarecer tudo.
Neto moveu reclamação trabalhista de R$ 120 mil contra a Rádio e Televisão Boas Novas.
- Ele nunca trabalhou na Rádio e Televisão Boas Novas. Tudo o que ele tem dito não passa de acusações levianas, gratuitas, irresponsáveis e ilegais. Nos vamos adotar todas as medidas judiciais e administrativas contra esse ataque gratuito, difamatório e calunioso – afirma Francisco Valadares Neto, advogado da deputada.
Veja os principais trechos da entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia:
O que você fazia quando começou a trabalhar para a deputada federal Antonia Lúcia e para o deputado estadual Walter Prado? Tudo começou na campanha de 2006. Participei da listagem de eleitores para a compra de votos.
Quantos votos foram comprados?
Da minha parte, daqueles que foram pagos por meu intermédio, foram mais de 30 votos. Como o voto era casado, tinha uma diferença. Ela era muito “pesada”, ou seja, muito ruim de voto para ser eleita. Era R$ 50 dele e R$ 50 dela. Cada voto casado custava R$ 100. Para votar nos dois ganhava R$ 100. Ele foi eleito e ela não.
O que aconteceu no ano seguinte?
Em 2007, comecei trabalhando como motorista de Antonia Lúcia na Rede Boas Novas, da qual ela era diretora. Ela disse que eu devia viajar para Brasília, comprar uma caminhonete Ranger cabine dupla, preta, placa NGY 4464, de Anápolis, Estado de Goiás. Ela disse que esse seria o carro no qual eu iria trabalhar na Rede Boas Novas.
Como se deu a compra?
Ela fez com que eu tirasse cheques. Eu já tinha uma conta no Banco do Brasil e outra no Banco Real, mas não movimentava cheques. A pedido de Antonia Lúcia, solicitei inicialmente 30 folhas de cheques ao Banco do Brasil. Assinei todos os cheques em branco e passei para ela. Ela usava meus cheques do Banco do Brasil e do Banco Real. Todas as folhas de cheques que solicitei aos dois bancos foram assinadas por mim e repassadas para ela e para a irmã Vera Lúcia, antiga diretora administrativa da Rede Boas Novas. Ela dava os cheques para cobrir compras de passagens de pastores, do próprio carro que ela estava devendo, pois parcelou a compra da Ranger. Ela também comprava material de construção, tudo.
O dinheiro era depositado na sua conta?
Não. Na maioria das vezes ela preferiu que eu fosse resgatar os cheques junto aos credores. Ela me dava o dinheiro para isso. Acontece que ela não dava baixa nos cheques sem fundo. Eu pedi providências, mas ela mandava eu aguardar, dizia que estava resolvendo  e que em 2008 iria precisar muito da minha conta. Deu tudo errado e eu fui perdendo a paciência. Alguns cheques ela resgatou e pagou, outros elas não pagou, como o cheque do bendito carro. Meus cheques foram usados para pagar até conta de luz.
Você não temia ser prejudicado assinando tantos cheques em branco?
Não porque ela sempre dizia que ia acertar tudo, com juros e correção monetária. Por se tratar de uma evangélica, jamais duvidei da palavra dela. Como falava tanto em Deus, tinha sempre o nome de Deus na frente de tudo, nunca pensei que fosse fazer isso comigo.
Quanto dinheiro ela movimentou usando as suas contas?
Posso afirmar que foi mais de R$ 200 mil. Atrás dos cheques aparecem os nomes dela ou da diretora administrativa. Os nomes delas eram associados no verso dos cheques. Ela não queria  deixar rastro do volume de dinheiro que movimentava.
Você sabe a origem do dinheiro?
Garanto que não é da Rede Boas Novas no Acre. Tudo vem do Amazonas, enviado pelo deputado federal Silas Câmara, marido da deputada Antonia Lúcia. A Rede Boas Novas tem 27 emissoras de rádio e TV, mas o faturamente é insignificante. Pode ser que o dinheiro venha mesmo dos fiéis da Assembléia de Deus.
Você presenciou isso alguma vez?
O dinheiro vinha de avião. Era trazido para o Acre por pessoas ligadas ao deputado Silas Câmara. Tudo vinha de avião, inclusive o material de propaganda. Fora os cheques, cedi um automóvel meu para pagamento de outdoor e até terreno. Ela tem dito que eu quero extorqui-la, mas não é verdade. Tenho tentado apenas receber o que é meu. Ela sempre me pedia paciência e prometia ajeitar minha situação. De lá para cá, passou a dizer que ia dar um jeito na minha vida. E passou a dizer para que eu tomasse cuidado com o delegado. O delegado é o deputado estadual Walter Prado. Não tenho medo dele e nem dela porque não sou bandido. Para trabalhar com Antonia Lúcia tem que virar bandido. Se eu aceitasse continuar, teria sido preso no ano passado pela Polícia Federal. Estaria respondendo com por crime  eleitoral e formação de quadrilha.
Qual foi a conseqüência disso tudo?
Estou sofrendo ameaças de morte e  também estou sendo coagido. Vasculharam até a minha vida funcional.
O governo do Acre ou o PT estão por trás disso?
Não. Acredito que não. Mas o certo é que a deputada e o deputado agem sem o conhecimento do governo e do PT. A Secretaria de Segurança Pública, sem um pedido judicial, cedeu informações de minha vida funcional sem um argumento legal. Bastou um pedido do advogado deles ao secretário.
O que tem de grave na sua vida funcional?
Não tem nada de grave. O que acho grave é que, em 2007, tentei obter a minha ficha funcional e não tive permissão. Estou preocupado com minha segurança e das pessoas próximas de mim, como amigos e parentes. Foi até difícil encontrar advogado para me defender. Ninguém quer enfrentar um delegado da Polícia Civil que é deputado estadual, assim como não quer enfrentar uma deputada federal, casada com deputado federal, donos de uma Rede de Comunicação.
Você se arrepende do que fez?
Com certeza. Não é vida para um homem trabalhar dessa maneira. Existe tanta gente boa, tantos políticos bons no Acre, como a vereadora Ariany Cadaxo, a deputada estadual Antonia Sales e a deputada federal Perpétua Almeida. São mulheres que honram a política. Espero muito e confio na Polícia Federal, no Ministério Público Federal e na Justiça. Se a minha verdade for a minha morte, essa verdade será dita, doa a quem doer. Caso aconteça alguma coisa comigo, outros surgirão para fazer o mesmo que fiz. Espero que o Acre e o Brasil se livrem de políticos que coagem, que compram votos.
Fonte: Blog do Altino.

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